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PARQUE ÁGUAS CLARAS

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Os espaços livres de uma cidade se constituem no lugar do bem estar das pessoas. As ruas, praças e parques, entendidos como  espaços públicos, promovem a vida urbana e revelam a vitalidade de determinado local.

Em especial os espaços gregários, aqueles que têm a função de estimular o convívio entre as pessoas, esses têm um papel central no reconhecimento e na identificação do cidadão com a sua cidade. Nos reconhecemos no nosso endereço, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa vizinhaça e, dessa forma, nos sentimos parte de algo que transcende a individualidade. Construímos a cidade de forma coletiva, pois seria impossível fazê-lo isoladamente.

O projeto do Parque Central e do Parque Sul de Águas Claras abre uma oportunidade nesse sentido. Esse lugar tem características peculiares e não é só um parque; são ruas, calçadas, passeios, praças, alamedas, boulevares e, por fim, um parque.

A descontinuidade do próprio território é a mais forte característica desse trecho da cidade.

As vias de automóveis, os trilhos do metrô, as rotas de ônibus, atuam como linhas de força que fragmentam os espaços livres e criam uma espécie de “colcha de retalhos não costurada”, um padrão de tecido inacabado. Os padrões de conexão entre esses segmentos são considerados os elementos chave da proposta. A questão posta é: como fazer para promover um todo coerente num lugar tão descontínuo?

Essa questão se desmembra nos seguintes entendimentos:

– Trata-se de um parque urbano, entrelaçado com o tecido da cidade. Um espaço antrópico,  fruto do desenho do homem.

– Há uma continuidade espacial e visual em relação ao Parque Águas Claras, sendo esse uma área que mantém características naturais, típicas de fundo de vale e mata ciliar do cerrado.

– Além das visuais para o Parque Águas Claras, existem aproveitamentos possíveis das visuais da própria cidade, de seus edifícios, seu entorno e inclusive das estruturas de mobilidade como o metrô, por exemplo. Ou seja, assume-se o caráter de urbanidade da sua inserção.

– Entende-se o lugar como um polo de mobilidade: bicicleta, carro, onibus e metrô.

– Em decorrência das questões acima, entende-se o movimento das pessoas na cidade como um componente da paisagem: a ação de deslocar-se.

Os problemas identificados, base para os critérios de projeto, seriam: a fragmentação e compartimentação (segmentação) provocadas pelo sistema viário; as barreiras impostas pelo sistema metroviário; a ausência de cobertura vegetal – a aridez – da maior parte dos lotes; a desconexão entre elementos paisagisticos de diversas escalas; a inexistência de clareza no sitema de espaços livres.

 

Dessa leitura territorial, sugere-se que os espaços de fragamentação carecem de elementos que gerem padrões de conexão, de forma a promover uma leitura contínua na espacialidade do futuro parque, minimizando as barreiras e promovendo deslocamentos fruitivos e, possivelmente, mais contínuos.

Os padrões de conexão descritos acima são pré-existências, ou seja: estão no próprio local. Foram identificados os seguintes:

Parque Central:

  • O sistema viário da porção noroeste do Parque Central tem um padrão geométrico retangular constituído de intervalos constantes de aproximadamente 86 metros entre as ruas: R. 33 Norte, Av. Parque Águas Claras, Rua 31 Norte, Rua 31 Sul, Rua 30 Norte, Rua 30 Sul e Rua das Paineiras. Esse paralelismo das vias é explorado para definir continuidades dentro do desenho proposto. Os 86 metros de distância organizam a escala perceptiva do parque dentro da cidade.
  • Apesar de recortada pelos trilhos e faixas de domínio do metrô, a topografia da porção sudeste do Parque Central apresenta um declive constante e praticamente perpendicular na direção da Estação de Metrô Águas Claras. Esse reconhecimento permite a utilização de outro padrão de traçado que complemente aquele da porção noroeste. As linhas nessa direção coincidem com a Av. Jacarandá, responsável por estabelecer a conexão com o parque Sul.

Parque Sul:

  • A definição do traçado reforça o eixo da Avenida Jacarandá e leva em consideração os usos do entorno: posto de saúde, escola, e demais elementos do entorno. Aqui a escala é mais próxima a da praça do que a do parque, constituindo, portanto, um híbrido dessas tipologias.

 

As possíveis diretrizes para os problemas identificados seriam:

– Configurar uma via com uso preferencial para pedestres na via hoje identificada como Boulevard Norte. Essa via tem o papel de integrar percusos e cruzamentos de usuários que cruzam o parque ou utilizam para atividades como caminhadas e percursos cicloviários. Para isso, deve-se promover um ajuste de traçado nessa via.

– Implantar passagens elevadas nas ruas: Av. das Castanheiras, Av. Parque Águas Claras e, a principal, na Rua das Paineiras. Nesses trechos o automóvel deve reduzir a velocidade a 30 km/h permitindo a continuidade do fluxo de pedestres e ciclistas.

– Promover ajustes no sistema viário do Boulevard Sul, após o viaduto da Av. Das Araucárias, de modo e reduzir a fragamentação desse trecho do parque.

– Identificar usos potenciais para cada trecho ou setor do parque: contemplação, espaços gregários, prática esportiva, lazer, comércio, entre outros. Os quiosques comerciais têm papel fundamental nessa diretriz. Eles movimentam cada um dos setores onde pode haver acúmulo de pessoas. Junto aos quiosques foram propostos paraciclos de forma a funcionarem com vigilância contínua e recíproca.

– Sugerir a proposição de elementos conectores que podem ser construídos em etapas posteriores comos as passarelas de pedestres sobre as vias de metrô, por exemplo.

 

Como forma de organizar a logística do canteiro de obras e planejar o gasto de recursos financeiros na execução dos parques, sugere-se a adoção das seguintes etapas construtivas:

Etapa 1 – Execução dos pavimentos,  da vegetação e da iluminação pública.

Etapa 2 – Implantação das construções modulares – quiosques -, do centro comunitário e dos sanitários.

Etapa 3 – Construção da cobertura pergola do espaço feira e da passarela em arco sobre ferrovia.

Etapa 4 – Construção das passarelas secundárias.

As etapas 1 e 2 são fundamentais. A partir da construção das mesmas, o parque pode funcionar integralmente. Etapas 3 e 4 podem ser executadas no tempo, conforme os recursos financeiros estiverem disponibilizados.

 

Elementos de Paisagismo

A ideia que organiza os sistemas de espaços livres do Parque Central e Parque Sul toma como base as premissas de traçado descritas anteriormente. O que se propõe, do ponto de vista da vegetação, é a constituição de características espaciais únicas para cada setor do parque.

A vegetação arbórea existente, basicamente constituída de eucaliptos e mangueiras, será mantida, em alguns locais, na medida em que qualifique os espaços livres e não comprometa a lógica da implantação geral.

Espaços como o Teatro ao Ar Livre e o Centro Comunitário exploram as visuais para o Parque Águas Claras. Dessa forma a arborização desses trechos sugere um paralelismo na direção desse elemento de paisagem.

Sobre o Centro Comunitário está proposta uma pequena praça que age como um dos espaços de entrada ao Parque Central. Partindo dessa praça se desenvolve a via de uso preferencial de pedestres.

Seguindo daí na direção sudeste, esse passeio de pedestres conduz de um lado à área para animais de estimação e de outro lado para a praça de skate. Esse último elemento aproveita o potencial paisagístico da área sobre o túnel do metrô. A linearidade desse trecho é mantida e são propostos túneis e passarelas que incrementam as conexões no sentido transversal.

Mais adiante, ainda seguindo o passeio para pedestres, temos na porção leste o setor esportivo do parque. As quadras de esporte e pista de patinação são servidos por equipamentos sanitários e quiosque de alimentação.

Na bifurcação das linhas metroviárias está posicionado o espaço multiuso. Seu formato circular permite abrigar eventos de diversas naturezas: shows musicais, parque de diversões, atividades circenses, feiras, ente outros.

Junto à Avenida Jacarandá propõe-se o percurso cicloviário que permite integrar Parque Central e Parque Sul. Sugere-se que haja um tratamento de calçamento nessa via, de forma a gerar elementos de identificação entre os dois parques. Nesse sentido, o desenho das calçadas, a arborização, o mobiliário urbano têm papel fundamental na construção da linearidade desses espaços.

Para a arborização, a opção foi preferencialmente por espécies nativas de cerrado, organizadas em algumas tipologias de forma a conferir caráter único a cada setor do parque e, ao mesmo tempo, promover a integração. Entre essas tipologias sugeridas destacam-se as linhas, as alamedas, os bosques e, em alguns casos, a reconstituição antrópica da ideia de cerrado de acordo com o espaçamento das espécies.

Tanto espécies arbóreas como as forrações são ordenadas através de um desenho em faixas de vegetação, reforçando os elementos pré-existentes apontados anteriormente. Ou seja: o traçado urbano, no caso da porção noroeste do Parque Central; as curvas de nível, no caso da porção sudeste do Parque Central.

Espécies possíveis para forrações e arbustivas, dependendo  das condições específicas de insolação e umidade, seriam: a grama batatais, a hera, a grama amendoim, o curculigo, a giesta, o lírio amarelo, a xanadu, a zebrina, a iuca, a crassula, o capim do texas e a crotalária, entre outros.

A intenção é reproduzir em pequena escala as faixas como em um “campo cultivado” onde as linhas geométricas da vegetação reforçam o traçado de caminhos, pavimentos e edificações. Esses elementos de paisagismo conectam o desenho dos parques com os elementos descritos anteriormente: ruas do entorno e relevo da região.

Como há carência de arborização urbana, a proposta interpreta o conjunto: o Parque Águas Claras, os Parques Central e Sul, as Praças e áreas livres próximas poderão ser conectados por eixos arborizados implantados junto às calçadas. Estes eixos agrupados formariam uma rede de arborização viária que poderia ser ampliada às demais regiões da cidade, propiciando sombreamento, novas percepções visuais, aromáticas, sonoras e psicológicas do lugar, além de promover abrigo e alimento à avifauna.

Não basta pensar o parque, o sucesso dele depende da qualificação dos espaços públicos da cidade que existe ao seu redor. Sua existência e sua gestão futura dependerão de políticas públicas que qualifiquem a cidade de Águas Claras e o seu sistema de espaços livres como um todo.

Autores:

Emerson Vidigal, Eron Costin, Fabio Henrique Faria, João Gabriel Rosa, Martin Kaufer Goic

Colaboradores: 

Astrid Harumi Bueno, Felipe Sanquetta, Daniela Moro, Gabriel Tomich

Consultores:

Ricardo Dias (estruturas)

Paula Farage (paisagismo)

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